segunda-feira, 10 de agosto de 2009

especial de fim de ano

tá, desculpem se sou insistente nesse assunto, mas essa é a referência da minha vida. imagine um fim de ano em que não houvesse retrospectiva, show da xuxa, casseta e planeta de natal, ou o bom e velho roberto carlos usando a mesma roupa, da mesma cor, com as mesmas canções e mesmo cabelo. e ao invés disso tudo, houvesse algo assim:


impossível né? mas não custa imaginar...

I remeber you


Nada mais brega e gay do que colocar a letra de uma música traduzida. Mas sim, fiz uma tradução livre, bem livre, de I remeber you, música por que estou apaixonado no momento. Sorte ter ganhado esse álbum de raras da Bjork. A canção é quente, romântica, triste, e Bjork usa muito bem seus graves e agudos, como sempre. Segue a tradução, acho que ficou fofinha. Tentei favorecer a rima com acentuação grave (você, mercê, glacê) para manter a gravidade do "you" da bjork, no inglês, entre outros detalhezinhos. hehe


me recordo você
deixei meus sonhos a sua mercê
há poucos beijos atrás

me recordo você
que disse "não vou te esquecer
por nada, jamais"

também me recordo
um sino distante
estrelas cintilantes
como chuva de glacê

quando a vida esvaecer
e os anjos indagarem
que me relembre
a emoção do sempre

certa, direi a eles, que recordo você

moscow


Eduardo Coutinho consegue levar além o brilhantismo de "Jogo de Cena" em "Moscou". Novamente, o enfoque é no trabalho do ator. O diretor acompanha o grupo Galpão na montagem de "Três Irmãs", de Tchékhov. Mais uma vez a brincadeira é não entender os limites entre arte e realidade, atuação e emoção verdadeira, memória e verdade, etc. Somado a isso, vem a grande metáfora para o trabalho do ator, que é a própria peça de Tchékov, um tratado sobre o tempo, a finitude, a repetição, a mesmice. Dessa forma, Coutinho mostra um lado árduo da vida do ator - nada glamouroso, repetitivo ao extremo e ainda assim irresistível.

Além disso, você tem a chance de ver o ótimo Grupo Galpão na tela grande.

O filme é isso, e muito, muito, muito mais. Não se dê ao luxo de perder.

olá

Uma pena estar há tanto tempo sem postar. Me entristece, mas minha cabeça não anda muito focada. Bem, mas vou tentar voltar a manter um nivel... hehe

Tentei escolher algum poema recente para colocar aqui e nada. Tô com ciúme deles, e vão ficar guardados, pelo menos, um tempo. Por isso, vou reproduzir um poema meu da Antologia Ávida Espingarda, que agora já tem data de lançamento, dia 23/08 - tbm será a última chance de me verem antes de ir para Cuba. Conto mais detalhes em breve.

Go - linguagem, em japonês

Quando de fogo-tentáculos as

palavras se esticarem (em vão)

(ou não) e tudo for dito, linguagem

o que por dizer faltará? Se suas

chinesas muralhas erguer-se-ão

ideogramáticas ou não, folhagens

frondosas floridas e anti-escassas

depois de já ter dito ex-caças de

jeit`outros, que faltará cassar?

Quando a nomear não houver mais coisas

e o tudo virar o nada inaudito-

inaudigo, o que, o que direis?

Dirás do nada como os esquimós

e suas dezenas de branco de

neve e o nada aos poucos de nu

ances, tal qual um ancestral, que aprende

a falar, revestir-se-á, com os

novos vocábulos recém-formados

que designam o tudo que saiu

do nada, que é o tudo esgotado-

dito, que é o nada nomeado-repleto.

terça-feira, 28 de julho de 2009

ávida espingarda

Pois é, essa é capa da Antologia Ávida Espingarda, que reúne 8 poetas, cada um com 10 poemas, todos estudantes de Letras da USP. Muito em breve é o lançamento. Aviso.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

redoma ou pato amarelo de borracha

- Eu não consigo ouvir nada. – disse Ricardo, bem baixinho, articulando cada uma das sílabas. Isso causava uma pressão divertida aos ouvidos, e ele sentia todos os ossos do seu crânio.

Mesmo assim, não conseguiu escutar o que falava. Sua cabeça estava mergulhada na espuma da banheira, e a torneira aberta ao máximo era cachoeira em tromba d’água.

- Eu não consigo ouvir nada. – dessa vez falou bem alto. Sua voz, distante, pareceu a de um adulto bêbado. Achou graça. Bolhinhas de sabão se formaram ao redor dos lábios e, ao estourar, fizeram cócegas.

Boiava no espaço limitado, deixando apenas o nariz, a boca, e os olhos (fechados) do lado de fora. Era um retiro necessário, fundamental aos seus ouvidos.

Fechou a torneira para a banheira esfriar aos poucos. Sem o som da água contra a água, descobria outros, que ecoavam de todo o apartamento, e até de outros andares do prédio. A pia gotejante. Sua mãe, provavelmente, atrapalhada com os armários da cozinha. O motor do elevador. Gemidos do sétimo... Mas a cada grau que a temperatura diminuía, ficava difícil não pensar também nas coisas ruins, pra lá da porta do banheiro.

Quando já estava um gelo só, voltou a ligar a torneira. O aquecimento amolecia os músculos, relaxando. Pensava no conforto da sua cama. Um soninho... Então, quando ficou quente o suficiente, desligou a torneira e começou tudo de novo.

Cansado da brincadeira, sentou. Com as pontas dos dedos, desenhou coisas na espuma. Um cachorro, uma pipa, mulheres caminhando. Tirou a tampa do ralo, prestando atenção no som cada vez mais forte da água escorrendo – parecia um chupão, como quando queremos mais milk shake quando já não tem. Esvaziou a banheira pela metade. Virou com o bumbum pra cima. Esfregou-se ao fundo escorregadio de cerâmica, cada vez mais rápido, sem entender, com a cabeça afundada no silêncio líquido.

A mãe bateu na porta. A canja estava pronta.

– Só mais um pouquinho.

Levantou com as mãos tremendo, enfiou o roupão branco de capuz. Passou a mão no espelho suado e se olhou. Girou o trinco da porta. A maçaneta o refletia metálico.

À mesa, a mãe beijou-lhe a ponta dos dedos, apertou-os para aquecer, e serviu uma concha da sopa. O bafo subiu do prato ao rosto, fazendo-o suar.

- Faz mal ficar tanto tempo assim no banho. A ponta de seus dedos e o seu peru estão que nem uvas passas.

Deu uma colherada.

- Mãe, amanhã vou mesmo ter que voltar pra escola?

- Lógico. Um dia você ia ter que.

Ele colocou as duas mãos sobre os ouvidos e cantarolou:

- Não tô te ouvindo, não tô te ouvindo.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

âncora

- Eu tenho muita coisa pra te contar.

Assim ele começou a conversa pelo celular.

- Então me conta.

Mordeu o lábio e esperou uma resposta. Elevou a voz:

- Não tô te ouvindo. Eu tô indo almoçar, e o telefone não pega bem no elevador.

Ela não escutou nada e, por alguma razão de que nem ela lembra, não pôde retornar a ligação.

Fazia dias que não conversavam. E o ímpeto de dizer espetava a garganta, de falar tanta coisa, sei lá o quê. A quantidade de idéias e palavras complicava a escolha de como começar, e a correria – corriam como cavalos para se encontrar apenas sobre um colchão de feno – dificultava um pouco mais. A vontade passava, e dava um sono nele. Relinchavam, exaustos.

- Você disse que tinha coisas para me contar.

Ele fingiu que roncava.

Com o tempo, ela reparava, aqui e ali, um jeito no olhar dele. Toda vez que ela via esse olhar, ela se surpreendia, como se fosse pela primeira vez. Dizia-se que era uma besteira, coisa de homem, homem é calado mesmo. Ou era medo de saber?

Aos fins de semana, quando ele fumava - mesmo quando estavam no meio de uma conversa corriqueira sobre trabalho ou falando mal de algum conhecido - parecia que o fogo trazia a ele uma aura sagrada. Entre uma palavra e outra ditas de maneira frívola, um lampejo daquele olhar aparecia, e era como se seu marido se tornasse cerebral e melancólico para, então, retornar a conversa, ainda mais empolgado. E ela procurou se sentir abençoada por ter um marido misterioso como o seu. Não duvidava que suas colegas de escritório fossem felizes. Mas não como ela. Elas também amavam, mas cabia tédio em seus amores. Ela era única - seu marido tinha alma de quem desbrava continentes, apesar de seu corpo escrever relatórios. Uma papada começava a crescer no pescoço dele.

- Eu tenho muita coisa pra te contar.

Ele tinha perdido a conta de quantas vezes tinha dito essa frase em 12 anos.

- Vá primeiro dar o seu mergulho, meu amor. Enquanto isso, me bronzeio. Conversamos depois.

Ele concordou, com a cabeça balançando lenta. Ele estava pesado, e caminhou com a elegância de um paquiderme até dentro d’água. Ela observou o seu andar, seu corpo. Estavam ficando velhos e, mesmo assim, ela sorriu satisfeita. Ele era um homem, calado e bronco, como os de antigamente.

Ele, assim que entrou no mar o suficiente para não dar pé, afundou.

Ela chorou muito, mas sequer se perguntou o que tanto ele queria lhe dizer.